sábado, 4 de abril de 2020


Quási

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dôr! - quási vivido...

Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
Quási o princípio e o fim - quási a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ansias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indicios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sôbre os precipícios...

Num impeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Um pouco mais de sol - e fôra brasa,
Um pouco mais de azul - e fôra além.
Para atingir, faltou-me um golpe de aza...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'












sexta-feira, 6 de setembro de 2019


COMO SE DE REPENTE AO CORAÇÃO DO SOL


Como se de repente ao coração do sol
as raízes da luz alguém as arrancasse...
Como se de repente as hélices do vento
arranhassem o ar, e o Mar estivesse perto...
Como se de repente o Mundo entontecesse...

Foi tudo de repente e tudo ao mesmo tempo:
escuridão, rumor, frescura, movimento.

Mas de entre as espirais confusas quem sabia
se era de novo amor, se era só melodia?

DAVID MOURÃO-FERREIRA



Fotografia da internet

sábado, 30 de julho de 2016

Sem ti



Não quero viver
sem ti
mais nenhum tempo

Nem sequer um segundo
do teu sono

Encostar-me toda a ti
eu não invento
Tu és a minha vida o tempo todo


Maria Teresa Horta










Imagem da internet

sábado, 25 de julho de 2015


Falavam-me de amor

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,
menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.
Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.
O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.


Natália Correia




quinta-feira, 11 de junho de 2015


Espanto

O brilho no olhar.
O espanto do desconhecido.
A alegria da descoberta.
A felicidade espelhada no rosto.

Sensação de maravilha,
Que logo cedo se perde,
Quando ao fim de poucos dias
O que era novo depressa passa a velho.

Em nada acho novidade,
Com pouco já me surpreendo.
Assim vou vivendo a vida,
Com o brilho dos olhos pouco intenso.

Saudades dessa alegria,
Cansada da monotonia,
Quero de novo me maravilhar
Sempre, todos os dias, apenas com um simples
Olhar!

Por vezes paro.
Paro.
Descanso o pensamento,
Cesso a inquietação,
Sossego o meu viver.

Afasto as ideias gigantes
E delicio-me nos pormenores,
Nos detalhes de um poema;
No sorriso das crianças;
Na canção da Natureza.

Assim me detenho.
Quieta.
O vento desmaia sobre mim
E adormeço,
Embalada apenas nos versos do meu ser...


Dulce Guarda