sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Zeca Afonso sempre



No 25º aniversário do seu «dobrar a curva da estrada»

Desta canção que apeteço
À espera do Maio ido
Chega-me agora um trinado
Do outro lado do rio

Quisera ser rio ou ave 
Cair no chão que estremeço
Para cantar à vontade
Esta canção que apeteço

Esta canção a meu gosto
Vinda pela madrugada
Sai da garganta da gente
Aos magotes pela estrada


  Escrito na prisão de Caxias




 




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

DE UMA SÓ VEZ

Então deixa-me fugir contigo.
Deixa-me largar as pedras, abandonar as ruas,
Empurrar o chão e subir às nuvens.
Soltar amarras, correntes e pendentes
Ir contigo para o preenchido vazio.

Deixa-me entrar nesse colorido,
Ser o centro do vermelho garrido
Do longe, do vasto, do desejo
Respirado, finalmente desejado.

Então deixa-me entrar nessa vida contigo,
Sair desta e ver que o mundo
Se renova cada dia.

Margarida Damião Ferreira





quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

ESTILHAÇOS



Estilhaços de vidro
Alguma coisa se partiu
Quebrou-se em milésimas
Partes infinitas e foscas
Tão pequenas
Jamais se dirá o que um dia foi
Permanece no chão
Coberto com uma longa teia
Brilham à medida que a luz trespassa
O que se terá desfeito?
Não há nada a limpar
Não é possível juntar todos os fragmentos
Estilhaços. . .


Sara Almeida Santos






sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

SONETO QUASE INÉDITO

Surge Janeiro frio
e pardacento,
Descem da serra os lobos
ao povoado;
Assentam-se os fantoches
em São Bento
E o Decreto da fome
é publicado.


Edita-se a novela do
Orçamento;
Cresce a miséria ao
povo amordaçado;
Mas os biltres do
novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.


E enquanto à fome o
povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
mistura de judeu e de vilão,
Também faz o pequeno " sacrifício "
De trinta contos - só!
- por seu ofício
Receber, a bem dele...
E da nação...


José Régio
Soneto escrito em 1969

 


















" José Régio e o seu burro " - por Hermínio Felizardo

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

FRUTOS VERMELHOS

A imensidão da cor espalha-se
Mistura-se na saliva dos desejos
Perde-se no centro da terra
Renova-se a cada beijo
Desvanece-se num só gemido
O prazer do púrpuro
O cheiro dos frutos
Sim, são vermelhos,
Sim, são meus
Encantos e desencantos,
Enquanto sonhas e enquanto te perdes
Suspiros no vazio...
Silêncio que não existe
Evades-te e de novo te reencontras
Nunca em ti, sempre em mim
Eis-te aqui
A preencher os contornos do todo


Sara Almeida Santos