sábado, 20 de abril de 2013

Sede




Suponho ponho
encaminho o espaço
no céu da tua boca 
e teu palato

As palavras formadas
na saliva
quando bebo o vinho
em tua face

Faço o novelo
e desfaço a arte
teço com o grito da água
a tua sede

Seco com o linho do cabelo
e passo
ao lado mesmo do nó do teu abraço


Maria Teresa Horta





quarta-feira, 27 de março de 2013

Depois das palavras


O silêncio continua o caminho
quando não é possível a viagem.

Tem campos
que se prologam na distância.
No seu dorso encontro
o que nenhuma frase alcançaria.

Os poemas ficam sempre antes
do lugar desejado.
Não seguem até ao fim
do instante que permitem.

O mundo começa no seu limite,
depois de cada palavra.
E a poesia outra vez isolada
tornou-se no sinal da despedida.


Joel Henriques

(publicado na Rev. Relâmpago, nº21. Versão modificada)









sexta-feira, 22 de março de 2013

Estilhaços


Estilhaços de vidro
Alguma coisa se partiu
Quebrou-se em milésimas
Partes infinitas e foscas
Tão pequenas
Jamais se dirá o que um dia foi
Permanece no chão
Coberto com uma longa teia
Brilham à medida que a luz trespassa
O que se terá desfeito?
Não hã nada a limpar
Não é possível juntar todos os fragmentos
Estilhaços. . .



Sara Almeida Santos




quarta-feira, 6 de março de 2013

AS PALAVRAS APROXIMAM


As palavras aproximam
prendem-soltam
são montanhas de espuma
que se faz-desfaz
na areia da fala


Soltam freios
abrem clareiras no medo
fazem pausa na aflição


ou então não:
                  matam
         afogam
                  separam definitivamente



Amando muito muito
ficamos sem palavras



Ana Hatherly




domingo, 13 de janeiro de 2013



A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não se aperta a mão:
aperta-se a garganta


Ana Hatherly