sexta-feira, 6 de setembro de 2019


COMO SE DE REPENTE AO CORAÇÃO DO SOL


Como se de repente ao coração do sol
as raízes da luz alguém as arrancasse...
Como se de repente as hélices do vento
arranhassem o ar, e o Mar estivesse perto...
Como se de repente o Mundo entontecesse...

Foi tudo de repente e tudo ao mesmo tempo:
escuridão, rumor, frescura, movimento.

Mas de entre as espirais confusas quem sabia
se era de novo amor, se era só melodia?

DAVID MOURÃO-FERREIRA



Fotografia da internet

sábado, 25 de julho de 2015


Falavam-me de amor

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,
menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.
Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.
O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.


Natália Correia




quinta-feira, 11 de junho de 2015


Espanto

O brilho no olhar.
O espanto do desconhecido.
A alegria da descoberta.
A felicidade espelhada no rosto.

Sensação de maravilha,
Que logo cedo se perde,
Quando ao fim de poucos dias
O que era novo depressa passa a velho.

Em nada acho novidade,
Com pouco já me surpreendo.
Assim vou vivendo a vida,
Com o brilho dos olhos pouco intenso.

Saudades dessa alegria,
Cansada da monotonia,
Quero de novo me maravilhar
Sempre, todos os dias, apenas com um simples
Olhar!

Por vezes paro.
Paro.
Descanso o pensamento,
Cesso a inquietação,
Sossego o meu viver.

Afasto as ideias gigantes
E delicio-me nos pormenores,
Nos detalhes de um poema;
No sorriso das crianças;
Na canção da Natureza.

Assim me detenho.
Quieta.
O vento desmaia sobre mim
E adormeço,
Embalada apenas nos versos do meu ser...


Dulce Guarda



sábado, 18 de outubro de 2014


Coisas simples

A chuva na janela,
Uma brisa leve no cabelo,
Um raio de sol ao fim do dia,
O cheiro da relva acabada de cortar.

Um abraço bem apertado,
Um segredo bem guardado,
Um sorriso pela manhã,
O verde espalhado no prado.

Uma troca de olhares,
O bater do coração,
Uma amizade colorida,
O partilhar de uma emoção.



Dulce Guarda



 




 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Aos mil e um sem abrigo


Mais uma noite ao relento
Corpos maltratados e sem alento
Tristeza de um maldito fado...
Corpos nascidos da terra lenta
São força parda e lamacenta
Simples papel amachucado


Sal das vidas...um vintém
Na espera contínua de alguém
E lembram a dureza, a secura
Sonata da vida tão incerta
E enquanto a cidade desperta
São farol em noite escura



Ana Flausino