sexta-feira, 22 de outubro de 2010

CUMPLICIDADE

Escuto o vento distante.
É dor que não é sentida.
Mas a brisa refrescante
A roçagar-me atrevida
É como beijo de amante
Atrás da porta da vida.




António Levi De Meireles




quinta-feira, 14 de outubro de 2010

AGARREI O TEMPO

Agarrei o tempo cruzei o medo
         Senti o olhar distante
      Nas ondas esbranquiçadas
             Que se agitam em
          Ritmos bailados à dor
         Sem vontade ou querer.

Agarrei o tempo perdido no silêncio
   Preso na solidão de um olhar vazio
      No despertar de um amanhecer
   Do sonho perdido em cada anoitecer
              De uma lágrima caída
            De um sorriso silenciado.

Agarrei o tempo perdido nos sonhos
   Que o vento arrastou na sua dança
           Sonhos que se perderam
       No desconhecido do infinito.


                   Agarrei o tempo...
                      Sem ter tempo
                   Para mim para ti...
                           Para nós...

                  Agarrei o tempo...
                        Mas perdi-o
              Sem ter tempo para o viver!


Paula Pinto

    



                           
                   

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

AMIGO

Se me tens como amigo
Abraça-me hoje contra o teu peito
Hoje sinto-me mendigo
Assim, marioneta sem jeito

Sinto um furacão de solidão
Habitar-me todo inteiro
E um perverso sentimento de desilusão
Me escarnece, tiro certeiro

Se me tens como amigo (ainda que tão só)
Não me lamentes
Acaricia-me e leva-me contigo
Porque eu criarei novas sementes

Assim, de modo terno, mas não me levantes
porque se Deus me concedeu este lamento
Amigo, tu já viste muito antes
Que minha alma só é alma quando há vento.


António Henrique



quinta-feira, 30 de setembro de 2010

SEDE

Suponho ponho
encaminho o espaço
no céu da tua boca
e teu palato


As palavras formadas
na saliva
quando bebo o vinho
em tua face


Faço o novelo
e desfaço a arte
teço com o grito da água
a tua sede


Seco com o linho do cabelo
e passo
ao lado mesmo do nó do teu abraço


Maria Teresa Horta


 

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

DESEJO

Desenha-me devagarinho
Quero uma asa grande
Mas a cara de menino
Com um corpo adelgaçado
Rumo indistinto ao seu destino.

Sou carnal, animal solto
No descampado do teu corpo

Que nós já fomos corpo entrelaçado
Num passado que não distingo.
Desenha-me em laivos de ternura,
Na mancha, na pinta, na nódoa, mas contigo

E o resto, que o faça a eternidade.


 António Henrique Figueiredo