quarta-feira, 6 de março de 2013

AS PALAVRAS APROXIMAM


As palavras aproximam
prendem-soltam
são montanhas de espuma
que se faz-desfaz
na areia da fala


Soltam freios
abrem clareiras no medo
fazem pausa na aflição


ou então não:
                  matam
         afogam
                  separam definitivamente



Amando muito muito
ficamos sem palavras



Ana Hatherly




domingo, 13 de janeiro de 2013



A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não se aperta a mão:
aperta-se a garganta


Ana Hatherly



quinta-feira, 10 de janeiro de 2013


Lágrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio,
água ( quase tudo )
e cloreto de sódio.


António Gedeão





sábado, 1 de setembro de 2012



Vim
romper fronteiras da memória, do sonho,
encontrar o imbomdeiro, o sabor das mangas,
do corpo solto no calor,
do som do vento nas palmeiras,
das flores garridas das buganvílias.
Cruzei-me com coloridas personagens.

A voz surge do nada
"não és de lugar nenhum" .
            Do meu lugar humano observo, o céu do hemisfério sul.
            Do meu lugar uma prece.

Rompi as fronteiras da memória,
Acomodei os sonhos,
caminho livre em direcção do vento,
Na pele inscrito o sol e o que não sei falar
Uma espécie de nudez me percorre.

Maria Teresa Mota





sexta-feira, 3 de agosto de 2012

POESIA

Mãos que se tocam
e se encontram
numa cidade que não é minha.
Encontro-te no toque.
Pressinto-te.
A noite apresenta-se com rosas e roxos.
É a hora ambígua das almas em comunhão.
E passeio-me em ti, como na minha cidade
que desconheço onde é.


Perco-me
Não conheço a tua geografia, apenas a intuo.
É uma viagem infinita, nos caminhos do outro.
Não tem nortes ou suis
apenas pontes que atravesso.


Nos sons de Bach
Reconheço-te.




Maria Teresa Mota