sábado, 25 de julho de 2015
Falavam-me de amor
Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,
menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.
Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.
O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.
Natália Correia
quinta-feira, 11 de junho de 2015
Espanto
O brilho no olhar.
O espanto do desconhecido.
A alegria da descoberta.
A felicidade espelhada no rosto.
Sensação de maravilha,
Que logo cedo se perde,
Quando ao fim de poucos dias
O que era novo depressa passa a velho.
Em nada acho novidade,
Com pouco já me surpreendo.
Assim vou vivendo a vida,
Com o brilho dos olhos pouco intenso.
Saudades dessa alegria,
Cansada da monotonia,
Quero de novo me maravilhar
Sempre, todos os dias, apenas com um simples
Olhar!
Por vezes paro.
Paro.
Descanso o pensamento,
Cesso a inquietação,
Sossego o meu viver.
Afasto as ideias gigantes
E delicio-me nos pormenores,
Nos detalhes de um poema;
No sorriso das crianças;
Na canção da Natureza.
Assim me detenho.
Quieta.
O vento desmaia sobre mim
E adormeço,
Embalada apenas nos versos do meu ser...
Dulce Guarda
sábado, 18 de outubro de 2014
Coisas simples
A chuva na janela,
Uma brisa leve no cabelo,
Um raio de sol ao fim do dia,
O cheiro da relva acabada de cortar.
Um abraço bem apertado,
Um segredo bem guardado,
Um sorriso pela manhã,
O verde espalhado no prado.
Uma troca de olhares,
O bater do coração,
Uma amizade colorida,
O partilhar de uma emoção.
Dulce Guarda
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Aos mil e um sem abrigo
Mais uma noite ao relento
Corpos maltratados e sem alento
Tristeza de um maldito fado...
Corpos nascidos da terra lenta
São força parda e lamacenta
Simples papel amachucado
Sal das vidas...um vintém
Na espera contínua de alguém
E lembram a dureza, a secura
Sonata da vida tão incerta
E enquanto a cidade desperta
São farol em noite escura
Ana Flausino
Mais uma noite ao relento
Corpos maltratados e sem alento
Tristeza de um maldito fado...
Corpos nascidos da terra lenta
São força parda e lamacenta
Simples papel amachucado
Sal das vidas...um vintém
Na espera contínua de alguém
E lembram a dureza, a secura
Sonata da vida tão incerta
E enquanto a cidade desperta
São farol em noite escura
Ana Flausino
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
Pequenas coisas
Falar do trigo e não dizer
o joio. Percorrer
em voo raso os campos
sem pousar
os pés no chão. Abrir
um fruto e sentir
no ar o cheiro
a alfazema. Pequenas coisas,
dirás, que nada
significam perante
esta outra, maior: dizer
o indizível. Ou esta:
entrar sem bússola
na floresta e não perder
o rumo. Ou essa outra, maior
que todas e cujo
nome por precaução
omites. Que é preciso,
às vezes,
não acordar o silêncio.
Albano Martins
Falar do trigo e não dizer
o joio. Percorrer
em voo raso os campos
sem pousar
os pés no chão. Abrir
um fruto e sentir
no ar o cheiro
a alfazema. Pequenas coisas,
dirás, que nada
significam perante
esta outra, maior: dizer
o indizível. Ou esta:
entrar sem bússola
na floresta e não perder
o rumo. Ou essa outra, maior
que todas e cujo
nome por precaução
omites. Que é preciso,
às vezes,
não acordar o silêncio.
Albano Martins
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