Deixo que venha
se aproxime ao de leve
pé ante pé até ao meu ouvido
Enquanto no peito o coração
estremece
e se apressa no sangue enfebrecido
Primeiro a floresta e em seguida
o bosque
mais bruma do que neve no tecido
Do poema que cresce e o papel absorve
verso a verso primeiro
em cada desabrigo
Toca então a torpeza e agacha-se
sagaz
um lobo faminto e recolhido
Ele trepa de manso e logo tão voraz
que da luz é a noz
e depois o ruído
Toma ágil o caminho
e em seguida o atalho
corre em alcateia ou fugindo sozinho
Na calada da noite desloca-se e traz
consigo o luar
com vestido de arminho
Sinto-o quando chega no arrepio
da pele, na vertigem selada
do pulso recolhido
À medida que escrevo
e o entorno no sonho
o dispo sem pressa e o deito comigo
Maria Teresa Horta
in "Inquietude"
quinta-feira, 22 de abril de 2010
terça-feira, 20 de abril de 2010
segunda-feira, 19 de abril de 2010
ONTEM
Quem me dera responder-te com a confiança que tive
Outrora nas tuas palavras,
Quem me dera acreditar que responder-te
Mudaria o mundo,
Quem me dera não ter marcas tão vincadas.
Hoje é tarde para amares a dor
E quereres ardor que vai já bem fundo.
Afinal apareceste.
E eu que julguei que eras só imaginação!
Margarida Damião Ferreira
Outrora nas tuas palavras,
Quem me dera acreditar que responder-te
Mudaria o mundo,
Quem me dera não ter marcas tão vincadas.
Hoje é tarde para amares a dor
E quereres ardor que vai já bem fundo.
Afinal apareceste.
E eu que julguei que eras só imaginação!
Margarida Damião Ferreira
quarta-feira, 7 de abril de 2010
segunda-feira, 5 de abril de 2010
CONSTELAÇÕES
Usamos todos a ilusão
de fabricar a vida:
histórias, constelações
de sons e gestos
Usamos todos a suprema glória
do amor: por generosidade
ou fantasia, ou nada, que de nada se fazem universos
Usamos todos mil chapéus de bicos
mal recortados e de encontro
ao sol:
o nosso mais perfeito em franja e bico
e um arremedo tal e seiscentista
que ofuscando-se: o sol
Usamos todos esta condição
de pó de vento, ou de rio
sem pé: único dom de fabricar o tempo
em raiz de palmeira
ou de cipreste
Ana Luísa Amaral
de fabricar a vida:
histórias, constelações
de sons e gestos
Usamos todos a suprema glória
do amor: por generosidade
ou fantasia, ou nada, que de nada se fazem universos
Usamos todos mil chapéus de bicos
mal recortados e de encontro
ao sol:
o nosso mais perfeito em franja e bico
e um arremedo tal e seiscentista
que ofuscando-se: o sol
Usamos todos esta condição
de pó de vento, ou de rio
sem pé: único dom de fabricar o tempo
em raiz de palmeira
ou de cipreste
Ana Luísa Amaral
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