domingo, 13 de janeiro de 2013
A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se
O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita
O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende
E quando o poema é bom
não se aperta a mão:
aperta-se a garganta
Ana Hatherly
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
Lágrima de preta
Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio,
água ( quase tudo )
e cloreto de sódio.
sábado, 1 de setembro de 2012
Vim
romper fronteiras da memória, do sonho,
encontrar o imbomdeiro, o sabor das mangas,
do corpo solto no calor,
do som do vento nas palmeiras,
das flores garridas das buganvílias.
Cruzei-me com coloridas personagens.
A voz surge do nada
"não és de lugar nenhum" .
Do meu lugar humano observo, o céu do hemisfério sul.
Do meu lugar uma prece.
Rompi as fronteiras da memória,
Acomodei os sonhos,
caminho livre em direcção do vento,
Na pele inscrito o sol e o que não sei falar
Uma espécie de nudez me percorre.
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
POESIA
Mãos que se tocam
e se encontram
numa cidade que não é minha.
Encontro-te no toque.
Pressinto-te.
A noite apresenta-se com rosas e roxos.
É a hora ambígua das almas em comunhão.
E passeio-me em ti, como na minha cidade
que desconheço onde é.
Perco-me
Não conheço a tua geografia, apenas a intuo.
É uma viagem infinita, nos caminhos do outro.
Não tem nortes ou suis
apenas pontes que atravesso.
Nos sons de Bach
Reconheço-te.
Maria Teresa Mota
e se encontram
numa cidade que não é minha.
Encontro-te no toque.
Pressinto-te.
A noite apresenta-se com rosas e roxos.
É a hora ambígua das almas em comunhão.
E passeio-me em ti, como na minha cidade
que desconheço onde é.
Perco-me
Não conheço a tua geografia, apenas a intuo.
É uma viagem infinita, nos caminhos do outro.
Não tem nortes ou suis
apenas pontes que atravesso.
Nos sons de Bach
Reconheço-te.
Maria Teresa Mota
terça-feira, 24 de julho de 2012
PERFILADOS DE MEDO
Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.
Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.
Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido.
os loucos, os fantasmas somos nós.
Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...
Alexandre O'Neill
o medo que nos salva da loucura
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.
Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.
Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido.
os loucos, os fantasmas somos nós.
Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...
Alexandre O'Neill
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